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quarta-feira, 19 de março de 2014

Edição 159 – Fevereiro/2014
Opinião
Dizem que a Mulher é o Sexo Frágil...


... Mas que mentira absurda.” Já faz tempo que essa música do Erasmo Carlos deixou de tocar nas rádios. Antes, era preciso romantizar a condição de força, capacidade e tenacidade das mulheres para mostrar de forma suave que os varões, os homens, também tinham sensibilidade para reconhecer o valor da mulher para além do estereótipo de delicadeza, suavidade, doçura e amorosidade. 
Dos anos 80 para cá, muita coisa mudou na realidade das mulheres. Infelizmente, nem tudo mudou e muita coisa não se transformou para melhor no universo feminino. Hoje, em pleno século XXI, parece coisa de dinossauro imaginar que as mulheres foram limitadas em seus desejos, projetos de vida, profissões, vida comunitária e carreira política porque os homens impuseram isso a elas. Muitos acreditam que tudo isso é coisa do passado. Ledo engano. As lutas femininas são muitas e precisam ser reinventadas continuamente, sob pena de “levarem, mas não ganharem”, ou seja, conquistarem muita coisa, mas não alcançarem sua emancipação.
As relações entre homens e mulheres têm muitas perspectivas. Uma das mais importantes é pensar que se tratam de relações de poder. Diante disso, fica mais fácil entender porque ao mesmo tempo em que muitas conquistas femininas aconteceram, um saudosismo parece tomar conta de muitos homens. Mulheres no poder como executivas de empresas, à frente dos governos federal, estadual e municipal e levando a vida sem precisar do arrego dos homens são hoje cada vez mais frequentes em nosso país. Esse protagonismo feminino, felizmente, deixou de ser característica apenas dos países nórdicos e também chegou aos supostamente tradicionalistas, machistas e atrasados países de cultura ibérica como nós.
Porém, muitas realizações das mulheres se deram à custa e revelia da própria feminilidade, representando ainda a hegemonia dos valores machistas, mesmo que agora quem os manifeste sejam as próprias fêmeas. Não se trata aqui de querer reeditar em pleno novo milênio o ideal da bela dona, delicada, fofinha, inocente e frágil, que muitos homens ainda esperam encontrar, sobretudo na cama. A luta pela conquista do poder de forma autoritária e manipuladora, a separação entre família e trabalho, sempre em detrimento da família e em prol de mais e mais trabalho, a conquista do sexo e do gozo à custa de mais e mais parceiros (ou parceiras) de pouca intimidade e sem nenhum intimismo e a obsessão do corpo em prejuízo da saúde e da própria identidade são alguns dos inúmeros exemplos dos descaminhos protagonizados pelas mulheres à frente de uma sociedade que ainda reproduz a visão de mundo e os valores machistas.
Além disso, cabe destacar que se algumas mulheres em nosso “Brasil varonil” de muitos varões autoritários já puseram o pé no novo século, outras parecem viver ainda no início do século XX. São elas as mulheres pobres, vivendo em situação de vulnerabilidade em diferentes regiões do país, que sofrem com a dependência econômica em relação aos parceiros, violência doméstica, exploração e mal uso do dinheiro da família pelos maridos,  submissão sexual e controle total de suas vidas pelos seus machos poderosos, ciumentos e inseguros.
Também cabe destacar que toda uma série de “achismos” sociais muito superficiais e infelizmente muito frequentes, vangloriando as mulheres sobre seus supostos superpoderes como líderes mais amáveis, profissionais mais humanas, pessoas mais íntegras, etc., etc. não passa de preconceito invertido. É típico do preconceituoso esperar pouco ou nada de alguém que sofre preconceito, para em seguida, depois que esse alguém faz algo relevante, sobrevalorizá-lo e superestimá-lo. Os achismos sobre os supostos superpoderes e aptidões das mulheres não passam de mitos. As habilidades, competências e realizações não são herdadas geneticamente, são construídas e conquistadas socialmente.
Mas, uma luta, várias mulheres estão ganhando. Essa luta ainda é bem desfavorável a elas, porém bastante promissora. É a luta da mudança cultural mais profunda da sociedade, levando tanto os homens quanto as próprias mulheres a viverem uma vida mais harmônica sem a fixação da conquista do poder pelo poder, do sexo pelo sexo e do dinheiro pelo dinheiro. Essa é a crença do grande sociólogo Alain Touraine, para o qual o “mundo das mulheres” está chegando. Suas pesquisas demonstram que tanto mulheres quanto homens, impelidos pelos exemplos das primeiras, estão buscando e sonhando conquistar a preservação da saúde e também do espírito, o zelo pela casa e também pelo meio ambiente, o equilíbrio entre trabalho e família e a compatibilização entre interesses públicos e privados. Esses sim são valores que as mulheres, ao longo de toda a história da humanidade, souberam melhor demonstrar para nós humanos do que muitos homens poderosos, que nos desgovernaram por milênios. Quiçá chegue mesmo o “mundo das mulheres”, porém, como diz Elomar em sua essencial “Cantiga do Estradar”: “...já passei pur tantas prova, inda tem prova a infrentá”.
               

Armindo dos Santos de Sousa Teodósio (Téo)

Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC Minas

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