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sábado, 11 de abril de 2015

Edição 172 – Março 2015
de fato entrevista finlandesa em visita a Brumadinho
Seu país tem um dos maiores IDH’s - Índice de Desenvolvimento Humano - do mundo, 0,879 ponto, com uma população subnutrida na ordem de 4% de total de 5.325.587 de habitantes (http://www.brasilescola.com/geografia/finlandia.htm). Um dos líderes mundiais na produção de celulares e no uso da internet, atualmente é o país que tem a maior taxa de utilização de celulares do mundo (65%), sendo, também, o principal produtor e exportador de telefones móveis do planeta. Participando da União Europeia desde 1995, a Finlândia possui 338.143 km² de área e 348 municípios de 12 províncias. O país nórdico tem 92,8% de cristãos, especialmente luteranos mas é também um dos países com maior porcentagem de ateus no mundo. No entanto uma das principais características da Finlândia é o avanço na Educação, sendo considerado um país com um dos melhores modelos educacionais do mundo, com mais uma recente inovação: será o primeiro país do Planeta a abolir a divisão do conteúdo escolar em matérias.
Ela é luterana, vem da capital Helsinque, onde a temperatura pode chegar a até - 3 °C no inverno e é sua primeira vez no Brasil, aonde chegou no dia 6 de março. Filha de uma família de cinco filhos (duas irmãs e dois irmãos), Anu Luoma tem 32 anos e é recordista em intercâmbio estudantil: já visitou 30 países, entre os quais Egito e Coreia do Sul.     
Simpaticíssima, esbanjando bom humor, e sentindo-se muito à vontade, Anu Luoma visitou, a nosso convite, a sede do jornal de fato, onde ficou por mais de cinco horas, respondeu nossa entrevista e ainda nos ofertou um monte de informações sobre seu País. Falando em língua inglesa (finlandês e sueco são os idiomas oficiais de seu país), a jovem Anu Luoma falou-nos de sua paixão pelo Brasil, sua admiração por nossos rapazes, a vontade de conhecer o Rio, SP e o Amazonas. Mostrou-se encantada com o programa do Governo Federal Ciências Sem Fronteiras; com o que chamou de nossa “conexão”, nosso acolhimento e abertura aos estrangeiros; e se disse surpresa com nosso transporte coletivo que, segundo ela, funciona “direitinho”. Disse-nos que também em seu país existe o “horário de verão”, mostrou-se encantada com nossas montanhas, e explicou porque a Educação funciona naquela região escandinava.
Sorrindo sempre, Anu falou-nos de sua vontade de aprender a dançar forró e que não quer ir embora sem antes experimentar o nosso churrasco.
Com vocês, Anu Luoma, uma finlandesa em Brumadinho. Acompanha sequência de fotos feitas durante a entrevista. Créditos: Larissa Alves Fernandes (Nota da redação: fotos retiradas em 13 de julho de 2015 a pedido da entrevistada)

de fato: Por que você escolheu o Brasil para fazer intercâmbio?

Anu Luoma: Porque sempre foi um sonho vir para o Brasil.

de fato: Em quais estados e cidades você esteve aqui no Brasil?
Anu Luoma: Apenas em Minas gerais, Belo Horizonte. Mas quero conhecer outros lugares como Rio, Amazonas, Foz de Iguaçu, Bonito [MT]... todos os lugares que eu tiver tempo e condições de ir.



 de fato: Como você achava que era o Brasil?

Anu Luoma: Eu só ouvia falar de São Paulo e Rio de janeiro. Não tinha ideia do que era o país. Quando estive na Coreia do Sul, encontrei um monte de brasileiros que estavam lá por causa do Ciências Sem Fronteiras [referindo-se ao programa do Governo Federal que possibilita jovens de todas as classes sociais estudem no exterior, custeados pelo Governo e recebendo bolsa de estudos de 800 dólares por mês). Conheci-os, achei-os muito interessante e aumentou minha vontade de visitar o Brasil. Fiquei encantada com o Ciências Sem Fronteiras.


 de fato: O que você está achando do Brasil? O Brasil é o aquilo que você achava que era, a imagem que você tinha do Brasil coincide com o que você está percebendo, sentindo aqui?

Anu Luoma: Sempre ouvi dizer que os brasileiros eram muito amigáveis, abertos, acolhedores. Mas não imaginava que fosse tão assim! Fiquei impressionada com a conexão brasileira, com a capacidade de as pessoas estarem conectadas uma às outras: quando cheguei a Belo Horizonte, estava com grande dificuldade de comunicação, então fiz contato com uma amiga, que fez contato com outros amigos seus e rapidamente conseguiram uma pessoa que entendia minha língua e fui ajudada.

 de fato: Comida, pessoas, cultura, o que você acha que acha mais interessante no Brasil?

Anu Luoma: As pessoas são muito conectadas. Assim que cheguei a Belo Horizonte já recebi o convite de Marina [referindo-se a estudante de Relações Internacionais Marina de Oliveira, que trabalha no serviço de intercâmbio do CEFET-MG e que recebeu a finlandesa] para passar a Páscoa em sua casa. Sobre a infraestrutura, eu não esperava que o transporte funcionasse tão bem! Fiquei surpresa como funciona bem, direitinho. No CEFET, o programa de intercâmbio é muito eficiente, os professores são bons, bem conceituados. Não visitei muitos lugares, mas acho a história do Brasil muito legal, estive em Outro Preto, acho muito legal a história do minério de Minas Gerais. As pessoas aqui são abertas, amigáveis, como falei. Estou adorando as frutas, que aqui são mais baratas que na Finlândia, estou aproveitando. Mal posso esperar para experimentar o churrasco. Só senti o cheiro até agora! A comida em geral não é muito doce, mas há doces muito doces, comparados aos da Finlândia. E algumas comidas mais salgadas do que as de lá.

 de fato: O que você achou dos rapazes brasileiros, gostou deles?

Anu Luoma: [A finlandesa disparou a rir e, com o sorriso mais gostos do mundo exclamou:Anu Luoma: Quem não gostaria?!

de fato: O que você acha do nosso povo, coisas positivas e negativas?
Anu Luoma: Quando a gente vai fazer intercâmbio, há um primeiro momento em que a gente acha tudo bonito, animado. Depois a gente começa a ter recaídas e, depois, volta ao estágio inicial. Mas ainda não cheguei à fase das recaídas [novamente dispara sua risada].


 de fato: Você já esteve em vários países. De qual mais gostou?

Anu Luoma: Honestamente, eu realmente gosto do Brasil, aqui me sinto em casa, é o mesmo espírito da Finlândia, em sinto muito bem.

de fato: Como é o povo finlandês?
Anu Luoma: Os finlandeses precisam muito de seu espaço privado, não são muito abertos como os brasileiros, não se tocam como vocês, brasileiros. É difícil se aproximar bem dos finlandeses, conhecê-los de forma mais íntima é difícil, mas se você os conhece, cria-se uma intimidade, a relação se torna mais próxima e você se torna um grande amigo. Eu nem me sinto uma típica finlandesa, adoro todos esses abraços e beijos que vocês dão na gente!

 de fato: A Finlândia é um país de muitas planícies, sem muitos pontos altos, sem grandes montanhas. O ponto mais alto do país, o Halti, no extremo norte da Lapónia, possui apenas 1328 m. O que você achou das nossas montanhas, especialmente das montanhas de Minas Gerais e de Brumadinho?

Anu Luoma: Gosto muito das montanhas. Inclusive hoje, quando estive na Estação do Conhecimento, fiquei olhando as montanhas e disse: “É muito diferente da Finlândia!” Lá é muito plano, tudo é perto. Aqui, quando vi o mapa de Belo Horizonte, achei que era tudo peto também. Mas quando a ente começa a andar de ônibus, ele desce, sobe, desce, sobe novamente e nunca chega!

de fato: O inverno finlandês pode durar 180 dias, de acordo com a região; o sul costuma ficar coberto de neve de 3 a 4 meses por ano, e o norte, até 7 meses. O inverno pode atingir temperatura de até -15 °C em janeiro e fevereiro ao sul, e -30 °C ao norte. O que você achou do nosso clima? Na sua região há no inverno noites muito longas, de quase 24 horas. Quando isso acontece, o que vocês fazem?  E no verão, com os dias longos, de quase 24 horas, o que fazem?
Anu Luoma: A gente se acostuma com o nosso clima, mas fica sempre esperando a próxima estação. Quando é verão, faz mais calor, os dias são muito claros, não escurece direito fica no máximo como se fossem 18 horas aqui, como estava hoje lá na Estação do Conhecimento. As férias acontecem nesse período, época em que as pessoas saem mais com os amigos, aproveitam mais, vão comer na piscina, vão à sauna. Aqui no Brasil é mais quente [ela enfrenta até -3 °C na capital Helsinque] mas tem ventos, tem muitas árvores e eu não senti falta do clima da Finlândia. Lá também existe o Horário de Verão. Quando posto na internet minhas fotos do verão brasileiro, meus amigos finlandeses ficam “furiosos”, “com inveja” de mim. [diz brincando]

 de fato: Em poucas palavras, o que é a Educação na Finlândia? Por que ela é considerada das melhores do mundo? Há algum nível de analfabetismo?

Anu Luoma: Eu não tive oportunidade de visitar escolas, mas me parece que a Educação no Brasil é muito teórica. Na Finlândia é muito interativa, o tratamento entre professor e aluno é mais igual, em relação ao conhecimento. Há matérias eletivas [matérias que os alunos por si mesmos escolhem cursar], curso extras dentro da escola. na faculdade, o aluno tem que obter 15 créditos, e eles podem obtê-los em diversos cursos, em cursos extras e não necessariamente no curso que faz, não necessariamente em sua graduação. Os professores usam métodos diferentes pois sabem que há alunos que aprendem mais escrevendo, outros ouvindo, e os professores estão atentos a isso. Há muita interatividade e dinâmica, há parceria com empresas, há muitos projetos desenvolvidos. Analfabetismo? [mostrando-se muito intrigada com nossa pergunta] Não!! Quando alguém tem dificuldades, tem algum tipo de deficiência, é feito um trabalho com eles, eles aprendem!  

de fato: E as salas de aula são cheias?
Anu Luoma: Tenta-se o limite de 30 alunos. Nos subúrbios, às vezes faltam alunos. Na escola infantil, se houver muitos alunos, há um assistente. Crianças com alguma dificuldade são atendidas em grupos menores. Os estudantes são muito acompanhados, há contato com as famílias de forma muito rápida, quase sempre via internet, e-mail [a Finlândia é um dos países onde o uso de internet é dos maiores do mundo].

de fato: E os professores recebem bons salários?
Anu Luoma: Em minha opinião, os professores não ganham o que deveriam ganhar. Mas eles ganham o suficiente para pagar tudo que precisam, para ter um bom padrão de vida. Lá o professor tem que estudar 7 anos, enquanto outros profissionais, como médicos, estudam 5 anos.  

de fato: Desde 1990, a Finlândia é considerada um Estado de bem-estar social. Há pobreza na Finlândia?
[Essa foi outra pergunta que deixou a finlandesa muito encucada e com dificuldade para responder]
Anu Luoma: Pobreza para nós é um conceito diferente do que é para vocês. Nós não temos mendigos, como existem em Belo Horizonte. Por causa da União Europeia, e o fato de as pessoas não precisarem de visto para irem de um país a outro, a Finlândia recebe muitos romenos que vão procurar trabalho, e causam certo estranhamento. Mas eles têm uma cultura de serem nômades e não ficam muito tempo no país. A nossa pobreza é quando as pessoas enfrentam alguma dificuldade, se divorciam, por exemplo, e a avó tem que ficar com os netos, aí aumentam as despesas da família, são despesas inesperadas. Então, para nós, pobreza é passar por essas dificuldades inesperadas. 

de fato: Mas vocês não tem pobreza no sentido de as pessoas passarem por privações, ficarem sem comer, sem condições de se divertir, viajar, não ter acesso à cultura, comprar bens, esse tipo de coisa?
Anu Luoma: No sentido de passar privações, não. É diferente do Brasil.

de fato: Conhece Jean Sibelius [Johan Julius Christian Sibelius, compositor erudito finlandês, 1865-1957]? O que achou de nossa música?
Anu Luoma: Sim, conheço. Não escutei muito a música brasileira. Mas tenho vontade de aprender a dançar forró.

 Nota da redação: agradecemos imensamente a Marina de Oliveira, que foi nossa tradutora na entrevista com Anu Luoma.   

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