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sábado, 20 de fevereiro de 2016

Edição 182 – Janeiro 2016
Opinião
 O “iate” do Lula e o jornalismo “sem noção”
Fernando Brito

A Folha hoje se supera. Apresenta como “prova” da ligação de Lula com o sítio que ele nunca negou frequentar, em Atibaia, um barco comprado por D. Mariza, sua mulher e mandado entregar lá.
A “embarcação”, como se vê no próprio jornal, é um bote de lata comprado por R$ 4.100.
Presta para navegar num laguinho, com a mulher, dois amigos e o isopor, se ninguém fizer muita gracinha de se ficar em pé, fazendo graça.
É o “iate do Lula”, quase igual ao Lady Laura do Roberto Carlos e só um pouco mais modesto do que as dúzias de lanchas que você vê em qualquer destes iate clubes que existem em qualquer cidade praiana.
A pergunta, obvia, é: e daí que o Lula frequente o sítio? E daí que sua mulher tenha comprado um bote, sequer a motor, para pescar umas tilápias, agora que já não podem, como nos velhos tempos, fazer isso na represa Billings?
Qual é a prova de que a reforma do sítio foi paga pela Odebrechet (segundo a Folha) ou pela OAS (segundo a Veja)?
E se o Lula frequentasse a mansão de um banqueiro? E se vivesse nos iates – os de verdade – da elite rica do país?
O que o barquinho mixuruca prova a não ser a absoluta modéstia do sujeito que, quatro anos atrás, escandalizava essa gente carregando um isopor para a praia?
Os jornais, a meganhagem e a turma do judiciário – que já não se separam nisso – estão dedicados a destruir o “perigo lulista”.
Esqueçam o barquinho: o que eles querem é ter de novo o leme do transatlântico.
Perderam até a noção do ridículo, convencidos de que já não há resistência a ele nas mentes lavadas do país.
E acabam revelando que, em suas mentes, o grande pecado de Lula, que ganha em palestras pagas o suficiente para comprar uma “porquera” daquelas por minuto que passe falando, ou para alugar uma cobertura na Côte D’Azur do Guarujá é continuar pensando como pobre: querendo comprar apartamento em pombal e barquinho de lata para ficar de caniço, dando banho em minhoca.
É que ter nascido pobre é um crime que até se perdoa, imperdoável mesmo é continuar se identificando com eles.

Fernando Brito, jornalista, é Editor do Blog Tijolaço. Texto publicado em 30/01/2016

O “Escândalo do Barco” é o episódio mais ridículo da história da mídia.

Paulo Nogueira

Há uma cena particularmente engraçada no filme Butch Cassidy. No final, Butch e seu companheiro Sundance Kid estão encurralados num canto na Bolívia. A polícia local pede reforços para o exército nacional. Vão chegando soldados às dezenas, centenas. O comandante da tropa pergunta num certo momento ao chefe da polícia. “Quantos são?”
A resposta vem seca: “Dois.”
O comandante faz uma careta de espanto. Imaginava um número considerável de bandidos.
“Dois???”
“Dois.”
Lembrei desta cena com o episódio do barco de Lula. Imagino dois leitores da Folha, que deu o furo como se fosse um novo Watergate, num diálogo assim.

Leitor 1: “Viu essa? Descobriram um barco do Molusco. Pegaram até a nota fiscal. Não tem como negar e dizer que não é dele.”
Leitor 2: “Esse Molusco tinha mesmo que se ferrar. Nove Dedos. Brahma. Deve custar uma fortuna o barco.”
O Leitor 2 mentaliza um iate igual ao de Roman Abramovic, o dono do Chelsea. O nome é Eclypse, e é conhecido como o Iate de 1,5 bilhão de dólares.
Leitor 2: “Quanto custa o barco do Brahma?”
O Leitor 1 mostra quatro dedos.
Leitor 2: “4 milhões de dólares?”
Ele ficou até decepcionado. Que são 4 milhões de dólares diante de 1,5 bilhão?
Leitor 1: “Não. 4 mil reais.”
Leitor 2: “O que??? 4 mil reais???”
Ele estaria menos inconformado se o preço fosse pelo menos em dólar. Numa rápida conta, ele percebeu que poderia comprar uma frota de barcos como os do Brahma.
Leitor 2: “Você tem certeza de que não errou? Não são 4 milhões de dólares? Dá uma conferida no site da Folha.”
O Leitor 1 começa a desconfiar da sua informação. Pensa que deve ter visto errado. O Moro não faria estardalhaço por uma ninharia. Começa a se condenar por passar adiante uma quantia sem sentido. Seu interlocutor vai achar que ele é uma besta, um cara capaz de falar num homem de 8 metros. Pega seu celular e vai checar.
4 mil reais.
Leitor 1: “Tou com um problema de conexão. Não tá dando pra checar. O importante, aliás, não é o preço. É o barco em si. Molusco ladrão!”
E assim se despedem os dois leitores da Folha, rumo ao planeta paralelo em que vivem sob o noticiário do jornal.
Penso neles e penso na mídia. Os jornais já tinham perdido o pudor em relação ao jornalismo tão desiquilibrado e parcial que praticam. Agora perderam também o senso do ridículo.
Em minha carreira de 35 anos, vi muitas coisas cômicas, ou tragicômicas, em jornais e revistas. Estava na Veja, por exemplo, quando saiu o “Boimate”, a combinação de boi com tomate, piada de uma publicação científica americana que a revista levou a sério.
Vi a Folha publicar, depois de uma decisão de Fórmula 1 no horário brasileiro da madrugada, um texto com a vitória de Senna e outro com a vitória de Prost, tudo isso numa só página para o leitor ler como lhe conviesse.
Mas nada, rigorosamente nada, se compara em estupidez à tentativa de transformar um barquinho mixuruca num escândalo nacional.

Paulo Nogueira é jornalista, fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo

Educação financeira: o que fazer para arrumar dinheiro com urgência?
Lélio Braga Calhau

Comentar com outras pessoas sobre o aperto financeiro não é uma experiência agradável. Dói compartilhar as angústias de ter contas chegando e não haver dinheiro em caixa para quitá-las. Quem conhece o “trauma” de ter um cheque devolvido por falta de fundos? A sensação de tristeza nos avassala nessas situações.
É um sentimento de impotência, uma frustração enorme e dolorosa com o resultado de decisões financeiras anteriores precipitadas ou feitas, em alguns casos, com indicações de pessoas mal intencionadas e que se revelaram, após meses ou anos, desastrosas. Isso pode afetar a todos nós.
Basta uma compra mal avaliada, como um financiamento de veículo, ou um comportamento compulsivo de compras a médio prazo, para se instalar uma pandemônio na vida do devedor e de toda sua família. Temos, então, que nos “policiar” sempre para que nosso equilíbrio financeiro seja mantido. E se temos família para tomar conta, esse cuidado não deve ser só redobrado; deve ser muito mais intenso.
Eu sempre ouvia pessoas próximas comentando casos assim. Todos nós conhecemos alguns, ou que ocorreram em nossas vidas, ou com amigos e familiares. Ultimamente está acontecendo algo mais doloroso comigo. Pelo fato do nosso trabalho de divulgar a educação financeira e os direitos dos consumidores estar ficando mais conhecido, tenho sido abordado por pessoas na minha cidade, nos fóruns e em eventos do meio jurídico, que se encontram muito endividadas.
Há gente endividada com todo o tipo de renda. Para muitos, a queda surgiu por conta do elevado padrão de consumo, para outros, com nomes mais diversos e motivos mais confusos, a ostentação, a “curtição”, o compromisso único com o presente em detrimento do futuro. Esses são apenas alguns dos exemplos.
Lancho numa pequena padaria perto da minha casa. É um “pastel de vento” de queijo e um refrigerante. Sei que a combinação não é saudável, mas é simples e remete à minha infância. Eu estou ali sentado e quase sempre é do mesmo jeito. As pessoas se aproximam e pedem conselhos financeiros. Vejo nos olhos deles a frustração e a dor de terem colocado a família em uma situação de grave endividamento. É triste ver isso nos olhos das pessoas.
Alguns estão marejados, outros escondem a dor e a vergonha de estarem com dívidas não honradas. Ao contrário do que se ventila, há muita gente honrada neste mundo e há pessoas em desespero por conta de estarem quase “quebradas”. Como promotor de justiça posso fazer muito pouco, já que o Ministério Público não atua judicialmente nesses casos, mas como ser humano, ouço e recomendo que as pessoas procurem advogados, contadores (ajudam muito a calcular novas possibilidades) ou defensores públicos.
Pense muito antes de fazer um gasto fora da sua realidade. Juventude passa, dinheiro voa e os “amigos” somem. Muita gente que ostentava há 20 ano, ou até menos, está hoje na rua da amargura. Sozinho.
Se você foi colhido nessa situação de forte endividamento, não se entregue. Levante a cabeça. Vai dar trabalho, mas procure especialistas e renegocie. Troque dívidas por outros empréstimos mais baratos. Analise as taxas de juros e opte sempre pelas mais baixas. Quite ou amortize as dívidas.
Como? De várias formas. Uma delas é vender coisas que já não lhe são mais úteis. Tenho certeza que você tem roupas, um celular, computador ou até uma TV que já não usa mais. Que tal vender esses itens e levantar um dinheiro com o que você já não precisa mais? Há famílias que organizam bazares na garagem para se livrarem do que não usam. Ganham dinheiro e mais espaço em casa.
Outra sugestão é fazer bicos. Encontrar uma atividade paralela fora do horário de trabalho pode dar aquela folga no orçamento. Possibilidades existem milhares. Você pode ser ajudante de pedreiro, de pintor, diarista ou até mesmo fazer artesanatos ou chocolates para complementar a renda. O mais importante é não se abater, nem desanimar diante das dificuldades.
Os chineses dizem que crise abre portas para oportunidades. Toda crise em que me envolvi na vida, de algum modo me serviu para crescimento e amadurecimento. Saí muito mais forte depois de eventos financeiros negativos do passado. Não desanime e respeite o ditado popular de que “o dinheiro não aceita desaforo”. Sua família vai lhe agradecer sempre!
Lélio Braga Calhau é Promotor de Justiça de defesa do consumidor do Ministério Público de Minas Gerais. Graduado em Psicologia pela UNIVALE, é Mestre em Direito do Estado e Cidadania pela UFG-RJ, palestrante e Coordenador do site e do Podcast "Educação Financeira para Todos".

Privatizar Valor e Socializar Crimes Ambientais

A noção de valor compartilhado diz respeito à mudança de compreensão sobre o papel das empresas junto à sociedade. Ela busca demonstrar que a responsabilidade social empresarial vai além da geração de bens e serviços úteis a sociedade, criação de empregos, pagamento de salários, distribuição de lucros, respeito à legislação vigente e pagamento de impostos. Além dessas formas tradicionais de geração de valor, que geralmente são avaliadas através de métricas econômicas, a ideia de valor compartilhado traz para o ambiente empresarial a perspectiva de incorporação e tratamento das questões sociais, ambientais e culturais em igualdade com a importância da rentabilidade econômica.
Considera-se como valor compartilhado o valor que as empresas, ao realizarem suas atividades e interagirem com as comunidades, geram também em termos sociais e ambientais, ou em outros termos, para a sustentabilidade dos municípios nas quais atuam.
Trata-se de uma tendência importante de gestão empresarial que tem se difundido entre diferentes empresas de diferentes portes ao redor do mundo e também no Brasil. Pelas oportunidades de criação de valor compartilhado presentes no nosso ambiente empresarial e a criatividade que muitas dessas soluções de sustentabilidade desenvolvidas em nosso país apresentam, o Brasil é visto mundialmente como celeiro de boas práticas de valor compartilhado.
Há alguns bons exemplos brasileiros de empresas que estão alterando suas estratégias de negócios em direção à geração de valor compartilhado. Mas, infelizmente, essas ainda são práticas isoladas e pouco difundidas no nosso contexto empresarial. O principal fator para essa baixa difusão está ligado a pouca sensibilidade das diretorias das empresas para promoverem mudanças consistentes em direção à geração de valor compartilhado. Várias dessas empresas desenvolvem boas práticas de responsabilidade social empresarial, porém as fazem a partir da crença de que são o centro das inovações sociais, desprezando o potencial de geração de valor advindo de parceiros das comunidades; melhoram processos produtivos em direção a eco eficiência (operações já existentes realizadas com melhor desempenho ambiental e social), porém enfrentam grande dificuldade de pensar em inovações mais radicais em suas atividades,  de forma a promover a eco efetividade (novas formas de operação muito mais úteis e relevantes para a sustentabilidade); não conseguem desenvolver ferramentas gerenciais capazes de administrar seus negócios a partir da efetiva valoração de ativos e passivos sociais, culturais e ambientais.
Na contramão de todo esse processo, os crimes cometidos pela Samarco permanecem sem punição e sem que efetivamente nenhum dos responsáveis esteja atrás das grades ainda. Isso sem falar no pagamento das multas, outro aspecto que serve para desnudar para toda a sociedade que não só a Samarco, mas também a Vale e a BHP nada têm de compromisso com a geração de valor compartilhado.
Brumadinho não pode esperar outro crime ambiental para se posicionar com pro atividade, de forma a barrar futuros crimes baseados em privatização de lucros e socialização de crimes ambientais como os praticados pela Samarco. A pergunta que fica é se membros do poder público e da sociedade civil de Brumadinho, cooptados pelas grandes empresas mineradoras, que lucram exageradamente a partir de nossa terra e distribuem pífios benefícios sociais para projetos sociais e ambientais questionáveis, terão coragem de agir de forma cidadã e voltada aos interesses efetivos dessa nossa cidade tão maltratada historicamente pela mineração.

Armindo dos Santos de Sousa Teodósio (Téo)
Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC Minas


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