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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Edição 205 – Janeiro 2018
Três histórias; uma reflexão
Por Nídia Maria de Jesus

1ª história

Em uma casa singela mas que respirava o amor por todos os lados, por todos os meios, por todos os cantos, vivia uma cadelinha que recebia de seus donos todo esse amor até que, num manhã chuvosa, receberam um novo morador, um cão esperto, viril, brincalhão, cheio de tantas qualidades que faziam aquela cadelinha se sentir a mais ditosa de todas as outras cadelas de sua rua.
Passado algum tempo, seus donos notaram que a cadela, apesar de ser tão bem cuidada, receber tanto carinho, se alimentar bem e estar sempre cheirosa, sem contar o amor que seu companheiro lhe dedicava, não ganhava peso e emagrecia a cada dia. Preocupados, resolveram acatar a opinião de amigos e castraram-na.
A cirurgia foi um sucesso e a cadelinha tornou-se mais bela ainda; dormia, dormia e engordava e, assim, pouco tempo lhe sobrava para brincar com o seu companheiro. Estava sempre cansada. Já ele, viril como era, não perdia uma só cadela no cio, das suas redondezas, fosse ela feia, magra, gorda etc. gostava de estar com sua companheira mas essa, indiferente, dormia e perdia a vontade de viver, até que, numa noite fria, ela partiu para onde não havia castração. Seu cãozinho querido se entristeceu por algumas horas apenas e voltou à sua vida de garanhão conquistador...
Mas cão é cão; perdoa sempre e esquece rápido. Já nós, humanos, não vivemos só de instintos; o sentimento sempre fala mais alto e, se o amor for verdadeiro, a sexualidade nesses casos é quase imaginária, podendo assim ter uma vida feliz. Talvez seja essa a melhor forma de encontrar a tão sonhada felicidade.

2ª história

Já nessa 2ª história, o cenário é um pouco mais feliz e menos complicado. Nela, o cãozinho foi o que sofreu uma cirurgia de emergência e perdeu a virilidade. Sua companheira o amava muito e estava sempre perto dele lhe oferecendo carinho e atenção; menos nos dias de cio. Nesses dias ela saía toda renitente à procura de algum macho que saciasse seu desejo sexual. Fazia sua escolha e, em seguida, voltava toda amorosa para junto de seu amado companheiro. Esse, por sua vez, a entendia e a perdoava e assim viveram felizes para sempre.

3ª história

Vou começar essa com um dito popular: “Errar é humano. Perdoar é canino”. Esse tipo é tão real como a história que agora narro.
Certo senhor, cheio de beleza e virilidade, era visto e invejado pelos seus amigos e inimigos também como um Dom Juan, um conquistador que despedaçava os corações das mulheres de sua cidade. Mas ele, despreocupado, gozava a vida sem pensar que um dia tudo passaria, a juventude, a saúde etc. Foi assim que, entre excessos e deslizes, seu corpo gritou tão alto que foi necessário passar por uma arriscada cirurgia. Orgulhoso, sofria calado, mas sem perder a fé em Deus e por isso nutria uma esperança de um dia voltar ao que era antes: “um macho” porque homem ele nunca deixou de ser. E que homem! Era querido pela maioria, principalmente pelas mulheres. E dentre essas havia uma que o amava de verdade. Para ela, ele era o mais carinhoso, o mais completo e o pouco tempo que passavam juntos valia como uma vida sonhada por ela durante muitos anos. 
Mas ele não aprendeu a amar, e assim não compreendia os seus novos sentimentos que a cada dia se tornaram mais confusos em sua mente. Teve medo de se perder no amor e decidiu se afastar aos poucos daquela mulher que o aceitava com suas limitações. Mas antes ele precisava, com sua rudez, com seu orgulho, humilhá-la para assim fazer valer o seu machismo. Ela o entendia e insistia, batendo na mesma tecla, sabendo que o amor sempre vence e também porque, quando estavam a sós, sentia que ele era também feliz. Só que ele não tinha a coragem de assumir que também a amava. Foi uma pena; um precisava do outro e o tempo passava veloz. Não eram mais jovens. Ele tinha medo, ela tinha coragem e não se envergonhava de expor seus sentimentos, mas estava cansada, desencantada e se enfraquecia a cada dia. Sempre estivera em busca do verdadeiro amor. O encontrara, mas não havia mais tempo de lutar por ele. Já ele, insensível e indiferente, não notava a dor daquela mulher com tanto amor a doar. Um amor que só aumentava na mesma proporção que aumentava o seu sofrimento causado pelo orgulho e maus tratos verbais dele.
Até que, numa manhã chuvosa, tomou uma decisão: esqueceria aquele homem que, um dia, habitara seu coração. Perdeu a vontade de viver, mas não perdeu a vontade de ajudar a minimizar o sofrimento daqueles que também sofriam por razões diversas. De vez em quando era enfraquecida pelo seu sofrimento, fazendo-a sentir-se incapaz na obra de Deus por não entender porque o seu amor não conseguira vencer. Era uma fracassada. Mesmo assim direcionou seu amor para outros valores morais, esperando o dia de voltar à pátria espiritual. Já ele, indiferente ao seu sofrimento, vivia como um autômato, trabalhando mais do que podia, enriquecendo a cada dia mais e assim atraindo para si aquelas que passam por cima de qualquer sentimento nobre, para conseguir algum bem material. Com esse assédio, ele fingia ser o conquistador de outrora até que chegou o dia de sua consciência aflorar com todos os ingredientes que acompanham o orgulho para assim ele poder avaliar o que é sofrer e o que é amar. Mas era tarde demais. Ela não mais acreditava que o amor sempre vence. Acreditava, sim: que não devemos deixar de lutar pelo amor, mas que devemos lutar sabendo que não são todos que merecem ser amados com tanta intensidade porque nem todos foram preparados para receber amor.  


* Nídia Maria de Jesus, moradora do bairro São Sebastião, é poeta, venceu vários concursos de poesias do jornal de fato

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