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quinta-feira, 30 de julho de 2026

 

A grande mentira - Crônica de uma Educação destruída 

        Reinaldo Fernandes*

       

- E aí, véi, vai na roda de samba amanhã?

        Um aluno ouve a colega perguntado ao Professor e comenta com o outro:

        - Viu, ela chamou ele de velho! Ela é racista! 

        Aí, na sala de aula do 9º ano, o aluno está, desde o início da aula, conversando, conversando alto e sem parar com os colegas, levantando-se do lugar sem pedir e ganhar licença, enquanto o Professor tenta falar. Então o mestre diz:

        - Ô, bicho, para de conversar! Você está atrapalhando desde o início do horário! 

        - Tá me chamando de animal, professor?

        O Professor explica que não, que é um jeito de falar, uma gíria:

        - Você não fala com seu colega: “Marca aí, viado!”? E você o está chamando de gay?

        O aluno diz que não. 

        - Pois é, é a mesma coisa: é só um jeito de falar. 

        O aluno parece convencido. Só que não! Ele procura a Coordenação Pedagógica, diz que o  Professor chamou ele de animal e a Coordenação Pedagógica anota: “O aluno disse que o professor o chamou de animal.” 

 



       
CENA 2: Uma aguinha para a mãe


        Novembro. Mês da consciência negra. Cumprindo a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que garante o estudo da consciência negra ao orientar as escolas a trabalharem a história e cultura afro-brasileira de forma obrigatória, conectando o currículo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais a fim de promover a igualdade, o respeito e o combate ao racismo, o Professor mostra o vídeo “Muhammad Ali fala sobre representatividade negra em 1971”. Falando sobre a análise que o pugilista faz sobre a criação de Tarzan, o Professor explica: “Ele está querendo dizer que o criador do personagem Tarzan está dizendo que preto é burro.”

        Um aluno, que, segundo a mãe, estava dormindo na sala, acorda, ouve as três últimas palavras, vai até a Coordenação Pedagógica e diz:

        - O professor é racista, ele disse na sala de aula que preto é burro. 

        E a Coordenação Pedagógica anota: “O aluno disse que o professor é racista.” A mãe vai até a escola reclamar, denuncia o Professor no Conselho Tutelar, no Ministério Público, no salão de beleza do bairro, a Coordenação busca uma água para a mãe porque ela está nervosa. Um mês depois, o Professor é convocado para ir à Gerência Regional de Educação para explicar seu racismo.


        Ps.: O dito aluno – ainda é mês de novembro – tem 155 registros no Diário de Bordo – caderno em que são anotadas as ocorrências relacionadas a mau comportamento -, feitos pelos seus nove professores e a Coordenação. A mãe já foi chamada 10 vezes na Escola para ser informada do mau comportamento do filho – ainda é mês de novembro – e para ajudá-lo a mudar de vida. E a Coordenação busca uma água para a mãe porque ela está nervosa.

        Ps2: O Professor apresentou o mesmo vídeo para outras 13 turmas e ninguém - nem mesmo um ET, um ser imaginário ou um UAP - reclamara à Coordenação sobre.

 


       
CENA 3: Eita que professor preguiçoso!


        O Professor distribui 2600 cópias de xérox do conteúdo programático aos alunos, mais 15 folhas de caderno de conteúdo anotado do quadro, mais um romance. A aluna vai à Coordenação e diz que “o professor não dá matéria.” O Professor copia o caderno da melhor aluna da turma, vai ao setor de xerografia e pega com o responsável as provas das 2600 cópias. O Professor copia os tópicos de seu conteúdo lançados no SMAE, trabalhado até aquele momento – ainda é março. Leva tudo para o diretor da escola. O diretor anota: “Ausência ou insuficiência de conteúdo acadêmico efetivo.”



       
CENA 4:”Calígula”


        O Professor cria um projeto de leitura, aprovado pela SMED, que leva 45 pessoas duas vezes numa excursão de três dias a São Paulo. A Secretaria de Educação apresenta o Professor como autor de “Boas Práticas”. O Professor prepara os alunos para participarem de um concurso internacional de poesias coordenado por ele. Mostra o filme “O carteiro e o poeta”.

Noutra ocasião, o Professor está analisando uma poesia que tem um verso que diz: “Nosso amor era como um rio profundo”. Ao ouvir a última palavra, vários alunos se olham, caem na gargalhada. O professor explica que pornografia não é legal, que os alunos não deveriam ficar pensando naquilo o tempo todo, que pornografia não é o mundo real.

Noutra aula, trabalhando reconto, o Professor está contando uma estória (com “e” mesmo) em que um personagem descobre que as filhas adolescentes estão escondendo uma revista pornográfica, conversa com elas sobre o assunto, explica que elas nem têm idade para aquilo etc.

        Uma mãe vai à escola e acusa o professor de estar passando um filme pornográfico para os alunos de 6ª ano, “em que homem transa com homem, mulher transa com mulher”. O Professor explica sobre o filme, sugere que a mãe o veja e tire suas próprias conclusões. Dias depois a diretora, que não acreditou na explicação do Professor, diz que viu a película e que “realmente não tem nada demais no filme!”

        Aluna procura a coordenação e diz que o Professor fica falando pornografia na sala de aula. A psicóloga faz cara de que o Professor está falando pornografia na sala de aula. A professora do AEE diz que o professor não pode tratar de temas “sensíveis” em sala de aula. O diretor anota: “O professor está tratando de temas de cunho sexual, pornográfico e fazendo condução inadequada de temas sensíveis, especialmente religião e sexualidade, constrangendo alunos por meio de histórias, exemplos.”

O Professor se lembra de que o deputado Nikolas Ferreira, do PL, também acusa os professores de discutir pornografia em sala-de-aula. O Professor se lembra também do poeta Bertolt Brecht e sua frase sobre a cadela do fascismo... 

 

        CENA 5: “O que eles gostam mesmo é de copiar.” 


        O Professor recebe uma intimação para comparecer ao tribunal, com aquela frase supersimpática da diretora: “Depois da aula, dá uma passadinha lá na minha sala.”

        Toda a gestão está lá! A Coordenação Pedagógica Geral diz que as turmas de 7ª ano estão reclamando das aulas do professor. O Professor está mostrando vídeos, desenhos, charges, opiniões de psiquiatras, psicólogos e cientistas, discutindo os perigos do uso excessivo do aparelho celular. A CPG orienta para ele passar matéria no quadro para os alunos copiarem. E completa:

        - O que eles gostam mesmo é de copiar. 

        O Professor questiona a orientação da CPG. A diretora anota: “O professor está questionando a autoridade da Coordenação Geral”.

       


       
CENA 6: Alguém está mentindo. Quem?


        Março, Mês da Mulher. O Professor discute o texto “Feminicídio no Brasil hoje”. Apesar de, em 2025, terem sido registradas 1.568 vítimas de feminicídio no Brasil, ele é o único Professor que está tratando do assunto com os alunos. Alunos procuram a Coordenação, que anota: “Alunos disseram que o Professor é machista.”

        Abril. Cumprindo a Lei Federal 10639, o Professor propõe discutir a consciência negra, trabalhando a história e cultura afro-brasileira, a fim de contribuir para a promoção da igualdade, o respeito e o combate ao racismo. O Professor discute as religiões de matriz africana. O PAS (que ironicamente parece querer guerrear com os Professores), reúne uma turma (mas jura que foram três) para “ouvir as reclamações sobre o professor”. Algum aluno reclama da temática desenvolvida pelo Professor; psicóloga e assistente social procuram o diretor e ele anota: “A aluna disse que o professor tem intolerância religiosa”. As mulheres do Programa Psicólogos e Assistentes Sociais na Educação juram sob sete Bíblias – e um Alcorão! - que se reuniram com as três turmas do professor; duas turmas do Professor juram que a psicóloga e a assistente não se reuniram com elas. A assistente enche o peito e diz: “Estamos aqui para defender o direito dos alunos.” Mas, sobre as reuniões… quem está mentindo, ela ou os alunos?, pergunta o Professor diante da assistente e mais 30 colegas. A assistente “não ouve” essa pergunta.

 


       
CENA 7: CUIDADO! Professor de alta periculosidade!


        O aluno está atrapalhando a aula. O Professor chama sua atenção uma, duas, três, cinco vezes. O aluno continua. O Professor o muda de lugar para ver se ele para de conversar com o colega. O aluno continua. O Professor pede para ele parar. Ele ri. Ele ri de novo. Ele ri na cara do Professor. O Professor explica que não está lhe contando piada e pede respeito. O aluno ri. Ri de novo. Ele olha para o colega e ri de novo. Ele ri na cara do Professor. O Professor perde a paciência, puxa sua carteira e lhe explica que se ele fizer aquilo fora da escola, com qualquer adulto, ele se dará mal. Agora ele para de rir.

        O irmão do aluno vai à Coordenação e reclama do professor. O pai, por acaso, está na escola: foi saber por que seu filho (o irmão) ficou com nota zero em determinada disciplina numa etapa valendo 30 pontos. O Diretor chama a Guarda Municipal, a PM, a Coordenação, a psicóloga, a assistente, a professora do AEE. E só não chama a PF e o Exército porque eles estão ocupados noutra tarefa, pintando meios-fios, tomando leite condensado, usando viagra, fazendo botóx, e impedindo pessoas de votarem… não necessariamente nessa ordem. O aluno diz que o professor quebrou a tela de seu celular. O pai diz que a tela já estava quebrada. O vice-diretor anota na ata da reunião: “O professor quebrou a tela do celular do aluno e jogou uma cadeira em direção a ele.”

 

 
       
CENA 8: Era uma vez...


        O Professor observa seus alunos. São, em sua quase totalidade, negros; todos periféricos, pobres, grande parte abandonada. Estão perdidos, dominados pela preguiça, desânimo, muitos não têm sequer sonho. Esqueceram-se de como se estuda, não demonstram nenhuma preocupação com suas notas. O Professor aprendeu com Paulo Freire que o educador pode e deve compartilhar aspectos de sua vida pessoal e de sua realidade com os alunos, dentro de uma relação dialógica, como ferramenta pedagógica para humanizar o processo de ensino-aprendizagem. O Professor sabe que o educador não é um ser isolado ou puramente técnico, mas sim um sujeito histórico e social que se move no mundo como pessoa completa. Conversa com seus alunos, fala de onde veio e que foi salvo pela Educação. Alguém, um ser ou uma turma que nunca tem nome, vai à Coordenação, acusa o Professor. A Coordenação anota: “O professor fica falando da própria história.”

 


       
CENA 9: Evan Treborn e o “Efeito Borboleta”


        O aluno – ainda é mês de novembro – tem 155 registros no Diário de Bordo, feitos por todos seus  professores e a Coordenação. A mãe já foi chamada – ainda é mês de novembro – 10 vezes na Escola para ser informada do mau comportamento do filho. Um dia o Professor pergunta para a turma se ela acha que um aluno assim vai dar certo na vida, se será feliz, tendo uma postura tão desrespeitosa.  Alguém, um ser ou uma turma que nunca tem nome, vai à Coordenação, acusa o Professor. A Coordenação anota: “O professor disse que há consequências de não ser uma boa pessoa: comentários depreciativos, personalizados, sobre o futuro dos alunos.”


       
CENA 10: Lúcifer


        Um aluno, ou dois, ou três, um ser imaginário ou uma turma – que, segundo os gestores, nunca têm nome, nem cara -, vai à Coordenação Pedagógica, acusa o Professor, a gestão “traduz” nas seguintes palavras: “O Professor usa de tratamento desrespeitoso, humilhante, intimidatório e discriminatório aos alunos, deboches, gritos, xingamentos, ridicularização de alunos, falas vexatórias e é homofóbico”. E Lúcifer, digo, o Professor nunca soube que era tão mau assim, nunca foi comunicado sobre isso.



       
CENA 11: Michael Jackson e Diego Maradona


        O Professor faz a chamada. Ele gosta de dar gargalhadas com os alunos, ser feliz durante suas aulas com eles. Brinca, acrescentando sobrenomes de famosos aos seus nomes: “Cristiano Ronaldo; Enzo Fernández, Gustavo Lima; Jenniffer Lopez, Michael Jackson”. Os alunos reclamam de que o Professor está colocando apelidos. A Coordenação Pedagógica anota: “O professor coloca apelidos nos alunos.”


 
       
CENA 12: Nem o Papa reclamou!


        O aluno M. E. N. T. E. conversa, faz caretas, tira a atenção da turma. O Professor pega sua carteira, coloca-o fora da sala, explicando que assim ele talvez se concentre na tarefa e deixa a turma também concentrar. O fiscal da prefeitura passa fiscalizando as salas, pergunta ao aluno porque ele está ali. O aluno diz que não sabe. O Professor pede à turma para dizer para o diretor. A turma fala. O diretor diz ao Professor que ele não deveria deixar o aluno ali, o Professor explica que vai voltá-lo para a sala, e que, embora a Coordenação Pedagógica fique furiosa quando professores enviam alunos pra lá, então ele fará isso das próximas vezes que o aluno tentar impedi-lo de dar sua aula. O Diretor anota: “O professor tirou a carteira e o material de um aluno de inclusão da sala de aula, colocando-o do lado de fora sob a justificativa de que o estudante estaria atrapalhando o rendimento das aulas.”


        Ps.: O aluno não é PCD. O aluno mantém ótimo relacionamento com o Professor, não reclamou do Professor, a família não reclamou, o Papa não reclamou.

   

       
CENA 13: Linguagem rebuscada


        O aluno diz para o outro:  “Vai tomar no seu cú!” O Professor explica que a palavra não tem acento, que ali não é lugar para palavrões e que a gente deve evitá-los. Na aula seguinte, o mesmo aluno, quando um colega esbarra nele, berra: “Buceta!” O Professor explica que ali não é lugar para palavrões e que a gente deve evitá-los. O aluno vai a Coordenação e diz que o Professor está perseguindo ele. A Coordenação anota: “O professor está perseguindo aluno.”




       
ÚLTIMA CENA: E o diretor agora preenche formulários e espera, ansiosamente, pela chegada de sua tão sonhada aposentadoria


        Aí, num belo dia azul de abril, o diretor denuncia o Professor. Segundo a Coordenação Pedagógica Geral, “a gente reuniu todas as anotações feitas sobre e contra o Professor”. O Diretor manda tudo para a Corregedoria-Geral do Município para que o Professor responda a um processo disciplinar. A Corregedoria ameaça com seis punições, entre elas “dispensa por justa causa ou cassação de aposentadoria”. 

(Ps.: O Professor está há 36,5 anos na rede de ensino).

        Anos mais tarde, depois que saiu da direção da escola, o diretor agora preenche formulários na Gerência de Educação (ou seria na SMED?), onde, ansiosamente, espera pela chegada de sua tão sonhada aposentadoria.

       

         Cai o pano. João aplaude. Maria aplaude. Júlio aplaude. Chírlei aplaude. Carminha aplaude. Álvaro aplaude.



       
* Reinaldo Fernandes é autor de cinco livros. Venceu vários prêmios literários, como o FLIT de Três Marias, “Cidade de Ouro Branco”; Leopoldina e Itajubá-MG; em Tatuí-SP; Icó-CE. Tem dezenas de publicações em revistas literárias nacionais e em várias antologias.

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