A
grande mentira - Crônica de uma Educação destruída
Reinaldo
Fernandes*
-
E aí, véi, vai na roda de samba amanhã?
Um aluno ouve a colega perguntado ao
Professor e comenta com o outro:
- Viu, ela chamou ele de velho! Ela é
racista!
Aí, na sala de aula do 9º ano, o aluno
está, desde o início da aula, conversando, conversando alto e sem parar com os
colegas, levantando-se do lugar sem pedir e ganhar licença, enquanto o
Professor tenta falar. Então o mestre diz:
- Ô, bicho, para de conversar! Você está
atrapalhando desde o início do horário!
- Tá me chamando de animal, professor?
O Professor explica que não, que é um
jeito de falar, uma gíria:
- Você não fala com seu colega: “Marca
aí, viado!”? E você o está chamando de gay?
O aluno diz que não.
- Pois é, é a mesma coisa: é só um jeito
de falar.
O aluno parece convencido. Só que não!
Ele procura a Coordenação Pedagógica, diz que o
Professor chamou ele de animal e a Coordenação Pedagógica anota: “O
aluno disse que o professor o chamou de animal.”
CENA
2: Uma aguinha para a mãe
Novembro. Mês da consciência
negra. Cumprindo a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que garante o estudo
da consciência negra ao orientar as escolas a trabalharem a história e cultura
afro-brasileira de forma obrigatória, conectando o currículo com as Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais a fim de
promover a igualdade, o respeito e o combate ao racismo, o Professor mostra o
vídeo “Muhammad Ali fala sobre representatividade negra em 1971”. Falando sobre
a análise que o pugilista faz sobre a criação de Tarzan, o Professor explica:
“Ele está querendo dizer que o criador do personagem Tarzan está dizendo que
preto é burro.”
Um aluno, que, segundo a mãe, estava
dormindo na sala, acorda, ouve as três últimas palavras, vai até a Coordenação
Pedagógica e diz:
- O professor é racista, ele disse na
sala de aula que preto é burro.
E a Coordenação Pedagógica anota: “O
aluno disse que o professor é racista.” A mãe vai até a escola reclamar, denuncia
o Professor no Conselho Tutelar, no Ministério Público, no salão de beleza do
bairro, a Coordenação busca uma água para a mãe porque ela está nervosa. Um mês
depois, o Professor é convocado para ir à Gerência Regional de Educação para
explicar seu racismo.
Ps.: O dito aluno – ainda é mês de
novembro – tem 155 registros no Diário de Bordo – caderno em que são anotadas
as ocorrências relacionadas a mau comportamento -, feitos pelos seus nove
professores e a Coordenação. A mãe já foi chamada 10 vezes na Escola para ser
informada do mau comportamento do filho – ainda é mês de novembro – e para ajudá-lo
a mudar de vida. E a Coordenação busca uma água para a mãe porque ela está
nervosa.
Ps2: O Professor apresentou o mesmo
vídeo para outras 13 turmas e ninguém - nem mesmo um ET, um ser imaginário ou
um UAP - reclamara à Coordenação sobre.
CENA 3: Eita que
professor preguiçoso!
O Professor distribui 2600 cópias
de xérox do conteúdo programático aos alunos, mais 15 folhas de caderno de
conteúdo anotado do quadro, mais um romance. A aluna vai à Coordenação e diz
que “o professor não dá matéria.” O Professor copia o caderno da melhor aluna
da turma, vai ao setor de xerografia e pega com o responsável as provas das
2600 cópias. O Professor copia os tópicos de seu conteúdo lançados no SMAE,
trabalhado até aquele momento – ainda é março. Leva tudo para o diretor da
escola. O diretor anota: “Ausência ou insuficiência de conteúdo acadêmico
efetivo.”
CENA 4:”Calígula”
O Professor cria um projeto de leitura,
aprovado pela SMED, que leva 45 pessoas duas vezes numa excursão de três dias a
São Paulo. A Secretaria de Educação apresenta o Professor como autor de “Boas
Práticas”. O Professor prepara os alunos para participarem de um concurso
internacional de poesias coordenado por ele. Mostra o filme “O carteiro e o
poeta”.
Noutra
ocasião, o Professor está analisando uma poesia que tem um verso que diz:
“Nosso amor era como um rio profundo”. Ao ouvir a última palavra, vários alunos
se olham, caem na gargalhada. O professor explica que pornografia não é legal,
que os alunos não deveriam ficar pensando naquilo o tempo todo, que pornografia
não é o mundo real.
Noutra
aula, trabalhando reconto, o Professor está contando uma estória (com “e” mesmo)
em que um personagem descobre que as filhas adolescentes estão escondendo uma
revista pornográfica, conversa com elas sobre o assunto, explica que elas nem
têm idade para aquilo etc.
Uma mãe vai à escola e acusa o professor
de estar passando um filme pornográfico para os alunos de 6ª ano, “em que homem
transa com homem, mulher transa com mulher”. O Professor explica sobre o filme,
sugere que a mãe o veja e tire suas próprias conclusões. Dias depois a
diretora, que não acreditou na explicação do Professor, diz que viu a película
e que “realmente não tem nada demais no filme!”
Aluna procura a coordenação e diz que o
Professor fica falando pornografia na sala de aula. A psicóloga faz cara de que
o Professor está falando pornografia na sala de aula. A professora do AEE diz
que o professor não pode tratar de temas “sensíveis” em sala de aula. O diretor
anota: “O professor está tratando de temas de cunho sexual, pornográfico e
fazendo condução inadequada de temas sensíveis, especialmente religião e
sexualidade, constrangendo alunos por meio de histórias, exemplos.”
O Professor se
lembra de que o deputado Nikolas Ferreira, do PL, também acusa os professores
de discutir pornografia em sala-de-aula. O Professor se lembra também do poeta
Bertolt Brecht e sua frase sobre a cadela do fascismo...
CENA 5: “O que eles
gostam mesmo é de copiar.”
O Professor recebe uma intimação
para comparecer ao tribunal, com aquela frase supersimpática da diretora:
“Depois da aula, dá uma passadinha lá na minha sala.”
Toda a gestão está lá! A Coordenação
Pedagógica Geral diz que as turmas de 7ª ano estão reclamando das aulas do
professor. O Professor está mostrando vídeos, desenhos, charges, opiniões de
psiquiatras, psicólogos e cientistas, discutindo os perigos do uso excessivo do
aparelho celular. A CPG orienta para ele passar matéria no quadro para os
alunos copiarem. E completa:
- O que eles gostam mesmo é de
copiar.
O Professor questiona a orientação da
CPG. A diretora anota: “O professor está questionando a autoridade da
Coordenação Geral”.
CENA 6: Alguém está
mentindo. Quem?
Março, Mês da Mulher. O Professor
discute o texto “Feminicídio no Brasil hoje”. Apesar de, em 2025, terem sido
registradas 1.568 vítimas de feminicídio no Brasil, ele é o único Professor que
está tratando do assunto com os alunos. Alunos procuram a Coordenação, que
anota: “Alunos disseram que o Professor é machista.”
Abril. Cumprindo a Lei Federal 10639, o
Professor propõe discutir a consciência negra, trabalhando a história e cultura
afro-brasileira, a fim de contribuir para a promoção da igualdade, o respeito e
o combate ao racismo. O Professor discute as religiões de matriz africana. O
PAS (que ironicamente parece querer guerrear com os Professores), reúne uma
turma (mas jura que foram três) para “ouvir as reclamações sobre o professor”.
Algum aluno reclama da temática desenvolvida pelo Professor; psicóloga e assistente
social procuram o diretor e ele anota: “A aluna disse que o professor tem
intolerância religiosa”. As mulheres do Programa Psicólogos e Assistentes
Sociais na Educação juram sob sete Bíblias – e um Alcorão! - que se reuniram
com as três turmas do professor; duas turmas do Professor juram que a psicóloga
e a assistente não se reuniram com elas. A assistente enche o peito e diz:
“Estamos aqui para defender o direito dos alunos.” Mas, sobre as reuniões… quem
está mentindo, ela ou os alunos?, pergunta o Professor diante da assistente e
mais 30 colegas. A assistente “não ouve” essa pergunta.
CENA 7: CUIDADO!
Professor de alta periculosidade!
O aluno está atrapalhando a aula.
O Professor chama sua atenção uma, duas, três, cinco vezes. O aluno continua. O
Professor o muda de lugar para ver se ele para de conversar com o colega. O
aluno continua. O Professor pede para ele parar. Ele ri. Ele ri de novo. Ele ri
na cara do Professor. O Professor explica que não está lhe contando piada e
pede respeito. O aluno ri. Ri de novo. Ele olha para o colega e ri de novo. Ele
ri na cara do Professor. O Professor perde a paciência, puxa sua carteira e lhe
explica que se ele fizer aquilo fora da escola, com qualquer adulto, ele se
dará mal. Agora ele para de rir.
O irmão do aluno vai à Coordenação e
reclama do professor. O pai, por acaso, está na escola: foi saber por que seu
filho (o irmão) ficou com nota zero em determinada disciplina numa etapa
valendo 30 pontos. O Diretor chama a Guarda Municipal, a PM, a Coordenação, a
psicóloga, a assistente, a professora do AEE. E só não chama a PF e o Exército
porque eles estão ocupados noutra tarefa, pintando meios-fios, tomando leite
condensado, usando viagra, fazendo botóx, e impedindo pessoas de votarem… não
necessariamente nessa ordem. O aluno diz que o professor quebrou a tela de seu
celular. O pai diz que a tela já estava quebrada. O vice-diretor anota na ata
da reunião: “O professor quebrou a tela do celular do aluno e jogou uma cadeira
em direção a ele.”
CENA 8: Era uma
vez...
O Professor observa seus alunos.
São, em sua quase totalidade, negros; todos periféricos, pobres, grande parte
abandonada. Estão perdidos, dominados pela preguiça, desânimo, muitos não têm
sequer sonho. Esqueceram-se de como se estuda, não demonstram nenhuma
preocupação com suas notas. O Professor aprendeu com Paulo Freire que o
educador pode e deve compartilhar aspectos de sua vida pessoal e de sua
realidade com os alunos, dentro de uma relação dialógica, como ferramenta
pedagógica para humanizar o processo de ensino-aprendizagem. O Professor sabe
que o educador não é um ser isolado ou puramente técnico, mas sim um sujeito
histórico e social que se move no mundo como pessoa completa. Conversa com seus
alunos, fala de onde veio e que foi salvo pela Educação. Alguém, um ser ou uma
turma que nunca tem nome, vai à Coordenação, acusa o Professor. A Coordenação
anota: “O professor fica falando da própria história.”
CENA 9: Evan
Treborn e o “Efeito Borboleta”
O aluno – ainda é mês de novembro
– tem 155 registros no Diário de Bordo, feitos por todos seus professores e a Coordenação. A mãe já foi
chamada – ainda é mês de novembro – 10 vezes na Escola para ser informada do
mau comportamento do filho. Um dia o Professor pergunta para a turma se ela
acha que um aluno assim vai dar certo na vida, se será feliz, tendo uma postura
tão desrespeitosa. Alguém, um ser ou uma
turma que nunca tem nome, vai à Coordenação, acusa o Professor. A Coordenação
anota: “O professor disse que há consequências de não ser uma boa pessoa:
comentários depreciativos, personalizados, sobre o futuro dos alunos.”
CENA 10: Lúcifer
Um aluno, ou dois, ou três, um ser
imaginário ou uma turma – que, segundo os gestores, nunca têm nome, nem cara -,
vai à Coordenação Pedagógica, acusa o Professor, a gestão “traduz” nas
seguintes palavras: “O Professor usa de tratamento desrespeitoso, humilhante,
intimidatório e discriminatório aos alunos, deboches, gritos, xingamentos,
ridicularização de alunos, falas vexatórias e é homofóbico”. E Lúcifer, digo, o
Professor nunca soube que era tão mau assim, nunca foi comunicado sobre isso.
CENA 11: Michael
Jackson e Diego Maradona
O Professor faz a chamada. Ele
gosta de dar gargalhadas com os alunos, ser feliz durante suas aulas com eles.
Brinca, acrescentando sobrenomes de famosos aos seus nomes: “Cristiano Ronaldo;
Enzo Fernández, Gustavo Lima; Jenniffer Lopez, Michael Jackson”. Os alunos
reclamam de que o Professor está colocando apelidos. A Coordenação Pedagógica
anota: “O professor coloca apelidos nos alunos.”
CENA 12: Nem o Papa
reclamou!
O aluno M. E. N. T. E. conversa,
faz caretas, tira a atenção da turma. O Professor pega sua carteira, coloca-o
fora da sala, explicando que assim ele talvez se concentre na tarefa e deixa a
turma também concentrar. O fiscal da prefeitura passa fiscalizando as salas,
pergunta ao aluno porque ele está ali. O aluno diz que não sabe. O Professor
pede à turma para dizer para o diretor. A turma fala. O diretor diz ao
Professor que ele não deveria deixar o aluno ali, o Professor explica que vai
voltá-lo para a sala, e que, embora a Coordenação Pedagógica fique furiosa
quando professores enviam alunos pra lá, então ele fará isso das próximas vezes
que o aluno tentar impedi-lo de dar sua aula. O Diretor anota: “O professor
tirou a carteira e o material de um aluno de inclusão da sala de aula,
colocando-o do lado de fora sob a justificativa de que o estudante estaria
atrapalhando o rendimento das aulas.”
Ps.: O aluno não é PCD. O aluno
mantém ótimo relacionamento com o Professor, não reclamou do Professor, a
família não reclamou, o Papa não reclamou.
CENA 13: Linguagem
rebuscada
O aluno diz para o outro: “Vai tomar no seu cú!” O Professor explica
que a palavra não tem acento, que ali não é lugar para palavrões e que a gente
deve evitá-los. Na aula seguinte, o mesmo aluno, quando um colega esbarra nele,
berra: “Buceta!” O Professor explica que ali não é lugar para palavrões e que a
gente deve evitá-los. O aluno vai a Coordenação e diz que o Professor está
perseguindo ele. A Coordenação anota: “O professor está perseguindo aluno.”
ÚLTIMA CENA: E o
diretor agora preenche formulários e espera, ansiosamente, pela chegada de sua
tão sonhada aposentadoria
Aí, num belo dia azul de abril, o diretor
denuncia o Professor. Segundo a Coordenação Pedagógica Geral, “a gente reuniu
todas as anotações feitas sobre e contra o Professor”. O Diretor manda tudo
para a Corregedoria-Geral do Município para que o Professor responda a um
processo disciplinar. A Corregedoria ameaça com seis punições, entre elas
“dispensa por justa causa ou cassação de aposentadoria”.
(Ps.: O Professor está há 36,5 anos na rede
de ensino).
Anos
mais tarde, depois que saiu da direção da escola, o diretor agora preenche
formulários na Gerência de Educação (ou seria na SMED?), onde, ansiosamente,
espera pela chegada de sua tão sonhada aposentadoria.
*
Reinaldo Fernandes é autor de
cinco livros. Venceu vários prêmios literários, como o FLIT de Três
Marias, “Cidade de Ouro Branco”; Leopoldina e Itajubá-MG; em Tatuí-SP;
Icó-CE. Tem dezenas de publicações em revistas literárias nacionais e em
várias antologias.

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